Renato Gonçalves
No dia 2 de Fevereiro de 1908 a Ilha Terceira acorda surpresa com a manchete do jornal “A União”: “ A monarquia portuguesa e os seus inimigos – Assassinato de El-Rei D. Carlos e Príncipe Luiz Filipe”.
A edição número 4 165 do diário angrense, na época, o único da ilha Terceira, dedica a quase totalidade da sua edição ao Regicídio, “caso único na história da monarquia portuguesa”.
Na altura, ainda pouco se sabia sobre as razões deste acto que a “A União” apelidou “ de infame e cobarde”, fruto de uma “exaltada gente que não vacila em perpetrar crimes de hediondez para caminharem atrás de uma visão”.
Os sentimentos de profundo luto e solidariedade para com a Família Real acompanham a indignação e perplexidade pela morte do Rei e do herdeiro do Coroa.
Nesta edição é ainda possível ficar a conhecer o novo rei – Infante D. Manuel, ler a biografia do Rei D. Carlos e do Príncipe Filipe, ler as notas de condolências do Governador Civil e a informação de que o luto pela morte do Rei seria de quatro meses e pelo Príncipe Real de dois, “metade desse tempo de luto pesado e metade aliviado”.
Sábado, 8 de Fevereiro, o editorial do “A União” fala sobre o funeral das vítimas do Regicídio. Num tom pesaroso e de homenagem ao Rei e Príncipe Real, o texto deixa a mensagem para que “aprendamos agora neste facto que maculou a nossa história, se não quisermos aprender nos são princípios dos deveres cívicos, o respeito pelas liberdades públicas e pelo respeito das leis estabelecidas”.
Na edição seguinte, a 10 de Fevereiro, o assassinato real volta a ocupar praticamente toda a edição do único diário da Terceira, agora já com todos os pormenores, num relato que vai desde o principio da conspiração de “republicanos e dissidentes” até à proclamação de D. Manuel e a constituição de um novo Gabinete governamental.
Novamente num tom muito crítico de toda a situação e elogioso da acção do Rei D. Carlos e da Monarquia, os leitores do jornal puderam ficar a saber que o assassinato foi da autoria de “um grupo de facínoras, instrumentos necessariamente dos conspiradores”, num acontecimento que “ veio enlutar a nação portuguesa”. O texto a deixa ainda um apelo para que “ os verdadeiros monárquicos, conservadores e homens de ordem, não devem deixar de atentar que a lúgubre tragédia é consequência manifesta da campanha revolucionária que nos últimos tempos se vem fazendo”. A edição deste dia deixa ainda a ideia que o sentimento monárquico “ tão adormecido nos últimos tempos, despertou com a notícia. Um sentimento forte de indignação se manifesta contra os facínoras e seus inspiradores”.
As homenagens do “A União” ao malogrado Rei e ao Príncipe continuaram na edição de 12 de Fevereiro, com a publicação dos retratos de toda a Família Real na capa do diário. No interior, era possível ficar a saber mais sobre a proclamação do novo monarca – D. Manuel II, e o programa do funeral “do Senhor D. Carlos e do Senhor D. Luiz Filipe”.
No dia 13, a capa do União fazia um apanhado das “manifestações de sentimento pelo assassinato de El-Rei D. Carlos e Príncipe D. Luiz Filipe” enviadas de vários pontos do Mundo, que davam conta de como a notícia da morte do Rei tinha sido recebida com grande indignação e sentimentos de profundo pesar.
O Regicídio
No dia 1 de Fevereiro de 1908 o Rei D.Carlos I regressava a Lisboa de uma temporada de caça em Vila Viçosa. Acompanhado da Rainha D. Amélia e do Príncipe herdeiro D. Luís Filipe chega ao Cais do Sodré por volta das 5h da tarde.
Apesar do clima de muita tensão política na época, o monarca decidiu seguir numa carruagem aberta levando apenas como escolta os batedores protocolares e um oficial a cavalo.
Ao passar pelo Terreiro do Paço, ouve-se um disparo. Um homem tira uma carabina que tinha escondida na capa que vestia e aproxima-se da carruagem atirando sobre o Rei, que tem morte imediata. De vários pontos da praça são disparados vários tiros sobre a carruagem real. O homem que estava junto da carruagem consegue disparar uma segunda vez, atingindo o Rei do ombro. Nesta altura surge um segundo regicida que consegue aproximar-se da carruagem e disparar sobre o Príncipe, que não fica ferido e consegue ai ripostar, atirando quatro balas em direcção ao segundo atirador que acaba pró morrer.
No entanto, ao disparar, o Príncipe herdeiro fica na linha de fogo do homem da carabina, acabando por ser atingido mortalmente na cara.
Os regicidas acabaram por ser controlados pelas autoridades, mas o excessivo zelo dos agentes presentes fez com que os dois homens fossem abatidos no local.
Mais tarde, veio-se a saber que os dois homens eram Manuel Buíça, um professor primário expulso do exército e Alfredo Costa, empregado do comércio e editor de publicações dedicadas a escândalos.
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