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CUNHA DE OLIVEIRA - "Nos Açores não se respira liberdade plena"

Publicado na Sábado, dia 07 de Junho de 2008, em Actualidade
 

 


Artur Cunha de Oliveira causou alguma celeuma há  poucos dias na Convenção “Vida Nova” quando afirmou que “os Açores vivem num ditadura democrática”.

 

Sem complexos, e do alto dos seus 83 anos de vida marcados por uma constante rebeldia contra tudo aquilo que nunca considerou ser o mais correcto, este confesso “socialista crítico” esclarece o que quis dizer.

“ Ditadura democrática é uma expressão que uso muitas vezes e mais não é que a maioria. É democrática porque foi obtida através de um processo de eleição e podem ser ditaduras porque, se eu tenho a maioria, você bem pode dizer o que quiser que a ultima palavra é minha.”

Cunha de Oliveira considera ser este o caso concreto dos Açores, em que a maioria socialista “não reconhece nenhum valor à oposição, pode ser a melhor proposta do mundo que se eles (PS) não quiserem, não avança”.

Para si, o que se vive no arquipélago é democracia mas “não é democracia pura”, dando como exemplo concreto desse conceito a sua passagem pela presidência da Assembleia Municipal de Angra do Heroísmo onde “aceitei muitas propostas da oposição, porque eram boas”.

O professor entende igualmente que esta situação não é um exclusivo do actual elenco governativo, vindo já dos os primórdios da Autonomia.

“Nos Açores nunca assisti a um estado de democracia pura porque as pessoas nunca tiveram uma educação para a democracia. Depois do 25 de Abril tive o propósito de ir de freguesia em freguesia a explicar às pessoas o que era a este novo sistema político, o que era o Parlamento, a Direita e a Esquerda, e nessa altura sintetizei o que são para mim “Os 10 mandamentos da democracia” [ver caixa].

As críticas também se estendem ao PSD, direccionadas especialmente para o que Cunha de Oliveira entende ter sido uma oportunidade única da Terceira se afirmar no contexto do Arquipélago.

“Quando me perguntam o que desejo para a Terceira eu respondo que há 40 anos houve um par de pessoas que pensaram fazer da ilha a primeira, fruto da sua história, da sua centralidade, nós fomos sempre a cabeça, Portugal já se fixou aqui, era nossa vocação sermos o centro do Governo e nunca soubemos faze-lo”.

Frontal e polémico avança dizendo que a ilha Terceira possui “condições impares”.

“Temos um aeroporto perto de uma marina com capacidade para fazer um excelente porto e uma chã ao lado onde se poderiam instalar fábricas, era questão de coordenar as coisas e isso era uma questão politica”, recorda, sem deixar de apontar os responsáveis.

“ Ponta Delgada teve prevalência, porque em vez de um terceirense ilustre foi eleito um micaelense ilustre e, aí, a culpa foi do PSD” – sintetiza.

Cunha de Oliveira vai mais longe e afirma que no Arquipélago não se vive um clima de “liberdade pura” e a falta de uma sociedade civil capaz é a causa maior desse problema.

“A sociedade civil não reage porque tem medo e não tem cabeça. Os partidos deviam fazer uma acção pedagógica sobre a democracia e como ela funciona. Não existe um pensamento independente” – reforça.

 

 

Estrutura sem suporte

 

 

Assumindo-se como socialista convicto mas “que sempre pensou pela sua cabeça”, Artur Cunha de Oliveira olha com preocupação para o futuro da Região.

“ Dentro de 20 anos os Açores vão ser novamente uma região de emigração porque não há fontes de riqueza suficientes para manter a qualidade de vida existente e aquilo onde se está a investir é de tal maneira dispendioso que nunca mais teremos dinheiro. O Estado não pode continuar a sustentar-nos e os fundos europeus vão acabar”.

O professor, investigador e escritor critica aqueles que entende terem querido preparar os Açores para a independência fazendo da região um pequeno Estado. Agora, questiona a utilidade de muitos desses investimentos e o seu peso na despesa pública.

“ As estruturas físicas que se criaram não foram em coisas que possam ser rentabilizadas, gastámos muito dinheiro em infra-estruturas que absorvem uma grande quantidade da receita pública, o mesmo se passando com o Governo Regional, o dinheiro que se gasta manter todos os Secretários e Directores Regionais”.

 

 

Uma vida rodeado de polémica

 

Artur Cunha de Oliveira iniciou-se nas lides políticas nos anos de 1946-47, quando era um jovem estudante de Teologia em Roma.

Nas primeiras eleições livres após a instituição da República italiana, o então jovem Cunha de Oliveira militou pela Democracia Cristã, participando em reuniões e acções de campanha às escondidas, para não ser descoberto pelo Reitor que não apreciava este tipo de actividades.

Regressado a Portugal em 1952, o seu estilo de ensino no Seminário valeu-lhe alguns problemas por ir contra alguns dos dogmas católicos.

Hoje em dia, considera-se um crente que mantêm um espírito critico e que olha preocupado para o “divorcio profundíssimo” entre a comunidade cristã e a sociedade cientifica “ como se houvesse uma oposição tremenda entre a Razão e a Fé”

 

 

 

 

 

Decálogo da Democracia

 

1 – O Poder está no Povo – ele é que é o soberano;

2- Mas o Povo, embora unido, não é uniforme; está partido. Daí que o Poder e a soberania residam, nos Partidos, embora em partes desiguais partidos da oposição também representam parte desse poder dado pelo povo;

3- Em Democracia há liberdade de opinião, de associação e de expressão. Mas não há liberdade de injúria, de violência, de opressão;

4- A Democracia distingue-se pela tolerância e respeito pela divergência;

5 – Na Democracia o que primeiro se deve procurar é o serviço ao bem comum;

6- É fundamental o reconhecimento da Verdade e do Bem (…) donde quer que provenham;

7 – A autocrítica deve ser permanente, e obrigatória a aceitação e o reconhecimento da crítica alheia como estímulo e meio de progresso;

8 – Em Democracia há adversários, mas não há inimigos: um adversário combate-se com lealdade; um inimigo elimina-se ou aniquila-se por todos os meios ao alcance;

9 – Em Democracia também o Poder corrompe, donde a necessidade de alternância;

10 – A Democracia é apenas um meio de servir e não uma ocasião de servir-se.

Renato Gonçalves

renato@auniao.com
 

 

 

 

 

Fotos: Lúcia Costa/Fotaçor

 

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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