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APOSTA TURÍSTICA - Caça furtiva e falta de apoios preocupam Associação de Caçadores

Publicado na Quarta-Feira, dia 20 de Agosto de 2008, em Actualidade
Em vésperas da abertura do calendário venatório, a 24 de Agosto, os caçadores defendem a valorização de uma modalidade que poderá ser uma aposta para o turismo na ilha Terceira.

A Associação Terceirense de Caçadores queixa-se de uma lei pouco severa e da falta de apoio governamental para formar e investir na caça.

Coelho, codorniz e galinhola são os animais de caça mais prejudicados pelos caçadores furtivos que abatem aquelas espécies fora da época venatória. Em conversa com o nosso jornal, o presidente da Associação Terceirense de Caçadores (ATC) alerta para a necessidade “urgente” da regulamentação da nova lei regional da caça.

“Actualmente a lei não considera crime abater animais de caça fora de tempo, apenas é contra-ordenação”, revela João Vicente. E continua: “As multas acabam por ser baratas e compensatórias, pois com 100 coelhos caçados fica tudo pago”.

A opinião é partilhada por Eduardo Leal Luís, presidente do Clube de Caça das Fontinhas (CCF), acrescentando que os caçadores “não se respeitam uns aos outros”.

“O caçador que está a caçar coelho, por exemplo, não deve abater tudo o que lhe aparece à frente. Uma espécie pode estar dentro da época mas a outra não”, explica.

Questionados sobre o eventual número de caçadores furtivos na ilha Terceira, ambos responderam prontamente que “são mais de metade”. A qualidade do coelho bravo e por conseguinte a sua procura para consumo e venda são os principais motivadores.

“A sorte é ser abundante na ilha devido às características vulcânicas e vegetação da Terceira. Noutras ilhas com pouca quantidade, como São Miguel ou Pico, o coelho já teria desaparecido”, considera o responsável pela ATC.

Em termos de atracção turística a caça constituiria uma “aposta” nos Açores. João Vicente acredita que no caso da ilha Terceira a abundância do coelho bravo, a nova lei regulamentada e o apoio do Governo Regional formariam as garantias necessárias para investimento no sector.  

“O nosso coelho é muito conhecido no continente e isso motiva os caçadores a viajarem até à ilha. Hoje com os custos das passagens e das estadias, as associações não têm possibilidades financeiras para apoiar a vinda de caçadores aos Açores”, conclui João Vicente.

 

Provas de Santo Huberto com “quebra” de concorrentes

 

O Campeonato Regional de Santo Huberto será realizado este ano na ilha em Outubro próximo e contará com participantes das ilhas de São Miguel, Graciosa, Pico e Terceira. Até lá os concorrentes terão de passar pelos apuramentos, cujas primeiras provas decorreram em Junho e Agosto passado. As finais estão marcadas para 20 e 21 de Setembro, no Galhardo, junto ao Algar do Carvão.

Ao contrário dos anos anteriores, segundo Eduardo Leal Luís, verifica-se uma “grande quebra” no número de caçadores inscritos.

“Este ano está fraco. Chegámos a fazer provas com mais de quarenta concorrentes, depois desceu para vinte e este ano totalizam sete”, revela o caçador actualmente classificado em primeiro lugar nas provas de Santo Huberto. Em causa, acrescenta, estão os custos financeiros que a modalidade exige e a “falta de apoio do governo regional”.

“Para além das armas e restante material, sem esquecer o cão, é necessário estar presente nas provas um juiz encartado vindo do Continente, o que tudo junto representa uma grande despesa para os concorrentes”, explica Eduardo Leal Luís, ao adiantar que “quanto menos participantes nas provas maior são os custos das mesmas”. Uma das soluções para minimizar as despesas seria receber algum apoio governamental e, sobretudo, apostar na formação de jovens locais para obterem a carteira profissional de juiz. “Se um dos nossos tirasse o curso de juiz seria mais fácil e mais barato, pois as passagens aéreas e as estadias estão muito dispendiosas”, considera o caçador de perdiz responsável pelo Clube de Caça das Fontinhas, referindo que “existem muitos jovens interessados em iniciar-se na caça”.

 

Aprender a caçar com regras 

 

Para garantir o investimento em formação, os interessados teriam que perceber as características da modalidade, uma vez que as exigências vão desde a indumentária do caçador ao cão.

“A partir do momento que o caçador se apresenta em prova o cronómetro está a marcar e cada erro é penalizado. A maneira do caçador actuar, se falhar ou apenas ferir a perdiz, a raça do cão, a presença do animal e o seu desempenho na caça, tudo conta”, sustenta. E defende: “Antes de tirarem a licença era bom assistirem a algumas provas, vão começar do zero e as armas não são brinquedos”.

Não menos importante e igualmente dispendioso é a criação e sustento dos “companheiros”, os cães de caça. De acordo com Eduardo Leal Luís, a par da formação de juiz, os cursos deveriam abranger o treino de cães, dado que presentemente na Terceira “poucos são os entendidos na matéria”.

De resto, os apoios financeiros para os caçadores regionais resumem-se a ajudas simbólicas das autarquias e juntas de freguesia.

 

Campo de treino “sem condições”

 

Comparando os caçadores açorianos com os continentais, Eduardo Leal Luís adianta que em termos de provas e competições os regionais se apresentam em desvantagem, isto é, com classificações inferiores. As associações, a facilidade em obter as perdizes, a preparação dos cães, e os campos de treino próprios para a caça resultam em meio caminho andado para o bom desempenho do concorrente.

Já o responsável pela ATC considera que o actual campo para treinos de caça, oferecido aos caçadores há dois anos pelos Serviços Florestais, não apresenta as devidas condições.

“Temos um campo de treino perto do aterro intermunicipal, sem condições dado ao mau estado do terreno”, sustenta, ao acrescentar que com “a falta de apoio financeiro se torna mais difícil de arranjar o terreno”. Porém, mesmo que seja possível dotar o espaço num campo de treino, Eduardo Leal Luís, considera a sua localização “pouco convidativa”.

“O terreno está perto da lixeira, pode prejudicar a saúde dos nossos cães. Se o tempo estiver do Norte o animal fica baralhado com a mistura de cheiros do lixo e da perdiz, sem saber o que está a fazer”, explica.

Ainda assim, em nome da paixão pela caça, os caçadores não desistem e esperam em breve ver a sua situação resolvida e a modalidade valorizada.

Actualmente existem na ilha Terceira três clubes (Clube de Caça das Fontinhas, Clube Cinegético e Cinófilo da ilha Terceira, Clube de Tiro da ilha Terceira) e uma associação (Associação Terceirense de Caçadores), o que perfaz um total de uma centena de associados. A nível Açores o número atinge os 500 associados pertencentes a associações das ilhas de São Miguel, Terceira, Graciosa e Pico.

Sónia Bettencourt

 

sonia@auniao.com

 

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