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Património garrano necessita de apoio

Publicado na Sexta-Feira, dia 26 de Setembro de 2003, em Actualidade

Património e promoção da Terceira
Garranos procuram
padrinhos e apoios

Humberta Augusto (texto e fotos)

Longe dos tempos em que os garranos eram instrumentos de trabalho e transporte na vida agrícola e quotidiana dos açorianos, e mais particularmente dos terceirenses, estes equinos autóctones da ilha Terceira necessitam hoje em de apoio para a sua procriação e sustentabilidade. Em causa está o património genealógico que se quer preservar e a história das vivências locais contada através destes cavalos especiais. Um programa universitário do Departamento de Ciências Agrárias que já reuniu onze exemplares da população equina procura agora padrinhos e apoios para os garranos da ilha Terceira.

Trazidos para os Açores no início do povoamento, os garranos, bem como a restante população equina que foi cá desembarcada, sofreram muitos alterações ao longo do tempo, contudo, a sua génese inalterada fá-lo ser considerado hoje em dia uma espécie autóctone da ilha Terceira.
Se noutros tempos, a população destes equinos de baixo porte, eficazes no transporte e de grande agilidade eram de extrema utilidade na faina agrícola e nos transportes das ilhas açorianas, hoje em dia, são poucos os exemplares que mantêm inalteradas as suas características originais.
Aliás, é no apogeu do seu proveito, que os garranos aprofundam as características que o definem e são plenamente aproveitados, uma vez que há registo da entrada, no início do século XX, de um cavalo, de nome “califa”, proveniente do Oriente, com semelhante morfologia, que veio consolidar as características do cavalo de pequeno porte.
Fruto da mecanização da agricultura e dos transportes, o uso destes animais foi gradualmente substituído por outros engenhos.
Iniciado em 1995, um programa desenvolvido pelo Núcleo de Biotecnologia do Departamento de Ciências Agrárias da Universidade dos Açores (UA), conseguiu reunir uma população de onze garranos que neste momento estão situados em terrenos cedidos pelos serviços florestais da ilha Terceira, mas a sua continuação depende dos apoios que surgirem.
Por isso, o lançamento de uma campanha de apadrinhamento destes garranos de grande valor patrimonial, é de grande importância.
A ideia, explica o investigador e docente universitário Artur Machado, é aumentar a população dos garranos, possibilitar melhores condições, e dá-los a conhecer às populações: “sendo o garrano reconhecido como um animal da ilha Terceira, porque não tê-lo, por exemplo, numa reserva ecológica da ilha, não só como atracção turística, mas sobretudo como exemplares vivos de um importante legado que deixamos às gerações vindouras”.

Padrinhos
procuram-se

À semelhança do que acontece no continente, onde os garranos do Gerês são um chamariz para o Parque Nacional do Gerês, permitindo igualmente a sua manutenção e sustentabilidade, o docente universitário aponta este como o exemplo a seguir.
Mas para já para este equino que tem reminiscências do cavalo peninsular e de raças orientais necessita de padrinhos e de contributos para se desenvolver.
“Os garranos necessitam de ser apadrinhados e de ser trazidos de novo à sociedade açoriana e terceirense, daí ser fundamental o apoio das populações”, reforça Artur Machado.
Já a recém-constituída Associação Açoriana de Criadores de Cavalos, da qual o docente faz parte, reserva nos seus estatutos a preservação e a promoção dos garranos, tendo inclusivamente já levado exemplares a feiras de cavalos.
Aliás, os garranos da ilha Terceira estão integrados num estudo de âmbito nacional sobre a evolução do cavalo lusitano.
Embora esta não seja uma raça hoje em dia totalmente reconhecida como tal, ao contrário do que acontece com os garranos do Gerês, os garranos da ilha Terceira constam de um livro alemão sobre raças de cavalos, sendo o seu reconhecimento um facto assumido nessa bibliografia.
Para quem contribuir para a proliferação dos garranos da ilha Terceira, cuja manutenção de um único exemplar ronda os 150 euros em média por ano, haverá, referiu Artur Machado, diplomas para distribuir, eventos sociais, e acima de tudo: “a sensação de estar a contribuir para algo que é verdadeiramente nosso, dar pelo prazer de ajudar, contribuindo para que as gerações vindouras possam usufruir destes belos animais”. Coluna

Garranos na
vida açoriana

O garrano é um cavalo de tipo sui generis, ao qual por isso chama-se garrano e não cavalo pequeno, porque mantém os seus caracteres e estatura bem fixos desde a antiguidade. Os garranos sofreram muitos cruzamentos ao longo dos séculos e os registos, apontados por Paula Lima Braga, técnica dos Serviços de Desenvolvimento Agrário da Terceira num relatório de estágio datado de 1995, falam das primeiras referências que existem sobre este tipo de equinos: «vieram do Minho os primeiros garranos e actualmente têm ainda bastantes representantes na população cavalar desta ilha. Esta variedade de raça luso-galiziana tende a desaparecer, pois as éguas são de preferência cobertas por burros, ao passo que as de marca são aproveitadas para a produção de animais maiores, filhos de garanhões da Coudelaria Nacional. Os garranos primitivos apenas se encontram hoje nos terrenos abertos e baldios(...). As mais pequenas (da raça garrana) são aproveitadas para produzirem gado muar, de grande valor nesta região» (Bruges, 1915).
«Os garranos são a montada de lavradores menos ricos e basta-lhes o pasto natural para os trazer aptos para o trabalho. Dão sela, transportam cargas enormes e dão tiro. Todo o leite retirado das criações desses lavradores é todos os dias transportado para as fábricas por estes pequenos animais» (IBIDEM).
Já em 1970, num estudo efectuado pela Secretaria de Estado da Agricultura, apontava para a existência de 7% de garranos nos Açores, ao lado de 74% de bovinos, 10,9% suínos, e 8,1% animais de capoeira.

Perfil do garrano
Com altura que varia entre 1,10m e 1.30m e com um peso que oscila entre os 180 e 200kg, o garrano da ilha Terceira define-se pela sua pequena estatura, cabeça fina e côncava e pelo seu carácter bravio. Crinas abundantes e um pelagem marcada por um vasto código de cores– desde o castanho, ao preto, ruço, baio, branco–, são outras das características dos garranos. Tem uma personalidade forte, são rijos aturam longas jornadas, suportam muito peso e no galope são ágeis e rápidos. Vitalidade é outro dos seus atributos.

Foto legenda: Umas das primeiras fêmeas garrano encontradas.
Foto legenda: Registo de um garrano presente a uma feira agrícola em 1924
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