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NÃO É UM, SÃO DOIS"

Publicado na Sábado, dia 21 de Novembro de 2009, por Alvaro Monjardino
Ambos os jornais diários de Angra davam esta semana uma notícia, perfeitamente igual, sobre a (próxima) reabilitação da sinagoga de Ponta Delgada. Bastante extensa e ilustrada, a notícia concluía assim: O arquipélago chegou a dispor de várias sinagogas nas ilhas de S. Miguel, Terceira e Faial, mas actualmente resta apenas a de Ponta Delgada e o cemitério israelita em Santa Clara, datado de 1834. Era patente o seguidismo acrítico de um texto alheio, que ademais omitia a referência ao cemitério dos Judeus de Angra, aqui criado desde que os princípios liberais já – e ainda só… – vigoravam nos Açores.
               Há 51 anos instaurei, a instância (e expensas) do senhor Salomão Alves Levy, um processo para fazer reconhecer a pertença do cemitério dos Judeus à Comunidade Israelita de Lisboa. Houve para isso que ir às origens, as quais mostraram ter Joaquim Zagory, morador nesta cidade, comprado em 1832 ao município de Angra o chamado curral do concelho, no declarado intuito de esse espaço passar a servir, como passou, de cemitério para os hebraicos: e isto por não haver então em Portugal qualquer associação legalmente reconhecida que os representasse. De facto, só em 1912 e com essas características se fundou a Comunidade Israelita de Lisboa. A partir disto, invocou-se a usucapião, assente na posse em nome própria por mais de trinta anos do cemitério dos Judeus de Angra, para este ser declarado propriedade da Comunidade Israelita, como efectivamente foi. Na audiência de julgamento, necessária porque o processo corria contra incertos (os herdeiros, desconhecidos, de Joaquim Zagory) depuseram como testemunhas D. Sara Benarus Levy e seu irmão Salomão Benarus Levy, ambos de idade avançada, e bem me lembro de a ouvir dizer que esperava ir brevemente ocupar também ali o seu lugar… Mais. Salomão Alves Levy – que, filho de pai judeu e de mãe cristã, foi o último a ser ali sepultado – legou à Comunidade Israelita de Lisboa e a uma associação beneficente, também israelita, a casa nº 102-106 da Rua de São João para, com o respectivo rendimento, se assegurar a manutenção do cemitério. Uma manutenção bastante descurada, diga-se de passagem, todavia há meia dúzia de anos suprida por uma reabilitação a sério, devida à Casa Bensaúde e à Direcção Regional da Cultura. E o cemitério – o «Campo da Igualdade», como se lê sobre a sua porta – ali está, velho de 177 anos, à direita de quem sobe o Caminho Novo do Castelo, hoje devidamente conservado e testemunhando uma época. Assim fica rectificada a notícia que dava o de Santa Clara como o único cemitério judeu existente nos Açores.
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