…Foi este o título que Manuel Maria Carrilho, antigo ministro português da Cultura e agora embaixador de Portugal na UNESCO (*), deu a um artigo publicado em «Le Monde» no passado dia 23, e onde, entre outras considerações, se lê este desalentado parágrafo: O último ano mostrou diariamente a desorientação em que todos estamos mergulhados: a falta de referências e de bússolas que possam dar um sentido à vida e ao mundo; os sofismas de especialistas fechados em modelos artificiais, que nada prevêem e quase nada explicam; o impasse de políticas mundiais que possam responder à globalização económico-financeira, inventando novos equilíbrios entre o direito e o mercado; a frivolidade dos media, cada vez mais reféns do instantâneo e do sensacional; a dificuldade das sociedades em terem uma visão de conjunto sobre si próprias, como se estivessem cegas pelo presente e não tivessem história nem futuro. É a partir deste triste quadro que Carrilho conclui pela necessidade de «refundar» a UNESCO para a mesma voltar a gozar da liderança que outrora teria sido seu apanágio.
Ora, para quem ainda se lembrar dessa liderança, haverá de reconhecer-se que tal se limitou a corresponder ao relativo peso de um terceiro-mundismo aparentemente neutral (ao estilo da guerra-fria) que de algum modo desapareceu quando (e porque) ela acabou.
Foi em contraponto disto que me surgiram as palavras de Jesus Cristo no capítulo 21 (8-11) do Evangelho de S. Lucas do passado dia 24: Tenham cuidado e não se deixem enganar por ninguém! Hão-de aparecer muitos a fingir que vêm em meu nome e a dizer: «Sou eu o Messias, chegou a hora!» Não vão atrás deles! E quando ouvirem dizer que há guerras e revoluções, não tenham medo. Estas coisas têm de acontecer primeiro, mas não quer dizer que já seja o fim. As nações hão-de entrar em luta umas com as outras, e os países vão atacar-se uns aos outros. Haverá grandes terramotos, fomes e pestes em muitos lugares, hão-de ver-se coisas espantosas e do céu virão grandes sinais».
Refundar a UNESCO, pois… mas como? E, sobretudo, ao abrigo de que valores? É que, nunca o esqueçamos, a Cultura não existe sem valores. Só que, quando é o homem a pretender criá-los, o resultado tende a dar no que aflige o nosso embaixador – quando não em coisas muito piores, como já aconteceu. De resto, em que consistia o pecado original senão nisso mesmo? Enfim, era bom ir pensando um pouco nisto – e justamente agora, no limiar das quatro semanas deste Advento de 2009.
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(*) United Nations Education, Science and Culture Organisation = Organização (das) Nações Unidas (para a) Educação, (a) Ciência e (a) Cultura.
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