Os cartazes que publicitaram a encenação dos seus textos em várias parte do globo já estão afixados. Norberto Ávila ultima, ao telemóvel, outros preparativos. O foyer do Auditório do Ramo Grande depressa se transformou na sala de visitas para o lançamento nacional, ontem à noite, de “Algum Teatro”, pela mão da Imprensa Nacional – Casa da Moeda, título que junta, em quatro volumes, vinte peças da autoria de Norberto Ávila.
Título “breve e despretensioso”, classifica o autor. Tal como o seu à vontade despretensioso. Sentamo-nos para conversar. Os quatro volumes, dispostos à nossa frente e acabados de sair das embalagens que os trouxeram de Lisboa, desafiam os porquês do seu percurso bibliográfico e as razões para a dramaturgia.
“«Algum Teatro» começa com a «As Histórias de Kakim», o grande ponto de partida para a internacionalização da minha obra”, refere.
Os textos, ordenados cronologicamente, foram da sua escolha: “escolhi os que me pareceram mais significativos”.
Os restantes dez textos teatrais, menciona, serão também em breve compilados. Para já, “Algum Teatro”, fruto de um trabalho iniciado há dois anos, está no centro da sua atenção, até porque o lançamento em território continental está ainda por acontecer.
Equilíbrio entre o cénico e o literário
Luiz Francisco Rebello, ensaísta português, escreve acerca do autor terceirense: “pela diversidade dos temas dramatizados, pela variedade e adequação aos modelos estruturantes, pelo saber oficial, pela capacidade inventiva do jogo cénico, pela sábia dosagem do real e do fantástico, do humor e da emoção, do erudito e do popular, e pela articulação perfeita de tudo isto, a obra de Norberto Ávila, já internacionalmente consagrada, ocupa um lugar ímpar no quadro da dramaturgia portuguesa contemporânea”. Este é, aliás, o texto o acompanha algum do material promocional da obra.
Sobre o seu reconhecido “incansável gosto pelo trabalho” com uma “certa preocupação com a ordem, o método”, o autor esclarece: “faço um grande esforço para que haja um equilíbrio entre a viabilidade cénica e a qualidade literária dos meus textos”. Este é o seu texto ideal.
Nunca fez teatro. Mas coloca-se no papel do personagem: “no pingue-pongue do diálogo eu tenho de situar-me num personagem”.
Na peça “D. João no Jardim das Delícias”, a troca de falas é feita para mais de trinta personagens: “quando a escrevi, nunca imaginei que alguém a representaria, tal era a logística de representar um texto com 30 personagens”. Um receio entretanto dissipado.
Mas, nesta delicada gestão das personalidades que cria, uma regra é de ouro: “isenção”
“O autor de teatro faz um exercício de isenção. Não pode apaixonar-se por uma personagem em detrimento de outras. Mesmo as personagens negativas merecem ser tornadas interessantes”.
À pergunta: “algum personagem seu é biográfico?”, Norberto Ávila explica: “já me tem dito que Hakim é um alter-ego meu”, reconhece. As semelhanças, aponta-as: “tem uma irreverência, uma ambição de denunciar as injustiças e as corrupções e uma compaixão pelos incompreendidos e pelos injustiçados”.
Carnaval terceirense “é único no mundo”
Dos palcos do mundo para o palco da ilha, é um salto. Neste capítulo, o autor é assertivo: “a Terceira com os seus cerca de cinquenta bailinhos de Carnaval é um caso único no mundo, não estejam com meias medidas”.
“É um Carnaval onde há acção, crítica social directa, muita criatividade teatral”.
Com o lançamento de “Algum Teatro”, Norberto Ávila aguarda que a ilha que o viu nascer o descubra doravante.
“Este lançamento vai despertar a comunidade e algumas pessoas que têm responsabilidade de grupos teatrais”.
Até porque, alicia, o autor trata a temática açoriana no seu trabalho. É o caso de “A Paixão segundo João Mateus”, que centra a história num poeta popular terceirense e do romance “No Mais Profundo das Águas”. Textos que assentam “nas manifestações mais profundas da açorianidade”, deixa antever.
Humberta Augusto (texto e fotos)
haugusto@auniao.com
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